
A tradicional chama azul está perdendo espaço para o brilho dos visores digitais. Com o preço do botijão de gás ainda pesando no orçamento, famílias brasileiras converteram suas cozinhas em verdadeiros laboratórios elétricos. O que começou com a popularização das air fryers agora se estende a cooktops de indução e fornos de convecção, transformando a conta de luz na principal protagonista das despesas domésticas, enquanto o botijão, antes onipresente, torna-se um item de reserva ou até descartável em novos projetos de arquitetura compacta.
Especialistas em economia doméstica apontam que a migração não é apenas uma questão de custo, mas de otimização de tempo. Em um cotidiano cada vez mais acelerado, a precisão do cozimento elétrico e a facilidade de limpeza atraem desde o jovem que mora sozinho até famílias grandes que buscam segurança contra vazamentos. Esse movimento forçou até a indústria imobiliária a se adaptar, com novos empreendimentos já nascendo sem tubulação de gás, apostando tudo na infraestrutura elétrica reforçada para suportar a demanda crescente de watts.
No entanto, essa transição traz novos desafios: a dependência absoluta da rede elétrica. Em dias de tempestades e quedas de energia, quem aboliu o fogo se vê de mãos atadas. Além disso, há o debate cultural sobre o sabor dos alimentos; chefs tradicionais defendem que a “alma” da comida brasileira reside no controle manual da chama. Enquanto o debate ferve, o consumidor vota com o bolso, preferindo a eficiência programável de um timer digital à incerteza de um botijão que sempre parece acabar no meio do preparo do almoço de domingo.